O Brasil é uma potência em ascensão no esqui alpino
Um mar de bandeiras verdes, ritmos de samba, torcidas dançando e o som melodioso da Língua Portuguesa — não, isso não é um jogo de futebol no Brasil. Agora, você pode vivenciar tudo isso também nas encostas íngremes dos Alpes austríacos ou acima do Círculo Polar Ártico, a -20°C.
Na temporada passada, Lucas Pinheiro Braathen colocou a terra natal de sua mãe, o Brasil, de vez no mapa mundial do esqui. E, muito rapidamente, a “Pinheiromania” tomou conta. Já era quase esperado que os brasileiros levariam Caipirinhas, o clima e alegria típicos do Carnaval para os sorteios dos números de largada para as corridas de esqui.
Mas a grande pergunta era: como o próprio Brasil está recebendo o esqui alpino?
Um interesse crescente pelos esportes de inverno
Em Sölden, conversamos com Anders Pettersson, presidente da CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve), sobre como um país tropical está recebendo o esqui alpino.
“Os esportes de inverno vêm crescendo bastante no Brasil nos últimos anos. Uma prova clara disso é que agora as provas são transmitidas ao vivo por vários canais (TVs e streaming) brasileiros com narração em português. Isso se deve principalmente à excelente representação dos nossos atletas”, disse Pettersson, visivelmente satisfeito tanto com a organização quanto com a atmosfera nos Alpes austríacos.
Nós também quisemos saber sua visão sobre os próximos Jogos Olímpicos na Itália, onde o Brasil espera enviar a maior delegação de sua história.
“A próxima Olimpíada de Inverno será um grande salto. De cinco atletas de neve (um no esqui alpino, uma no esqui estilo livre e três no esqui cross-country) em Pequim, provavelmente passaremos para nove. Tudo será definido em meados de janeiro. Mas não se trata apenas de números; estamos otimistas em relação à participação do Brasil. Teremos atletas no esqui alpino masculino e feminino, no esqui cross-country masculino e feminino, no snowboard half-pipe masculino e, provavelmente no biatlo e também no snowboard cross.”
De acordo com as informações disponíveis, Lucas Pinheiro Braathen já tem vaga garantida para os Jogos Olímpicos. Christian Oliveira Soevik (que compartilha das mesmas raízes norueguesas e brasileiras), Giovanni Ongaro e Christoph Brandtner disputam as duas vagas restantes. No feminino do esqui alpino, a vaga pode ficar com Alice Padilha, Emily Magnani ou Isabella Springer. Todas as decisões serão tomadas em meados de janeiro.
O Brasil também enxerga grande potencial de medalhas no snowboard Half Pipe com Pat Burgener, que passou a representar o Brasil após competir anteriormente pela Suíça como Lucas Pinheiro Braathen em relação à Noruega.
Uma parte importante do crescimento dos esportes de inverno no Brasil está relacionada aos Jogos Paralímpicos, onde as chances de medalha são grandes graças aos atletas do esqui sentado cross-country Aline Rocha e Cristian Ribera. Perguntamos ao Anders Pettersson se essa rápida ascensão de interesse também traz nova pressão.
“Claro que existe pressão. Mas como trabalhamos com ciclos de vários anos e planejamos tudo com antecedência, não vejo isso como uma mudança dramática”, explicou calmamente.
Narrando no estilo brasileiro
Os direitos de transmissão da Copa do Mundo de Esqui Alpino são divididos entre as provas realizadas dentro e fora da Áustria. Adicionalmente, os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais são vendidos separadamente. Por isso os brasileiros podem acompanhar o esqui por diferentes canais (TVs e streaming). Como resultado, mais profissionais de mídia vêm cobrindo a modalidade. Quisemos saber como é transmitir o esqui alpino para um público que está apenas iniciando sua jornada.
Gabriel Gentile, da Time Brasil TV, que cobriu as provas de Sölden, compartilhou:
“Falar sobre esqui no Brasil é algo especial, porque para a maioria das pessoas ainda é um esporte novo. Muitos só o conhecem por filmes ou viagens de férias, então parte do nosso trabalho é explicar as regras e ajudar o público a descobri-lo. Os esportes de inverno cresceram aqui, especialmente depois dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, que foram a primeira edição transmitida em TV aberta. A recepção foi surpreendente — até o curling virou febre, mesmo sem termos uma equipe. Nós acompanhamos esportes que não são tradicionais no Brasil, então, além de pesquisar muito, também precisamos explicar tudo. Mas os brasileiros amam esportes de ação como surfe e skate, então é fácil trazer as pessoas para o esqui e o snowboard. O interesse ainda não é tão grande, mas está crescendo. Dá para ver na audiência e nas redes sociais — nossos atletas estão ganhando cada vez mais seguidores. A sensação é de que estamos construindo um esporte completamente novo junto com o público.” — Gabriel Gentile
Flávio Ascânio e Luciano SokDra Lancellotti, da ESPN Brasil, tiveram a oportunidade extraordinária de acompanhar a primeira vitória da história do Brasil na Copa do Mundo — o triunfo de Pinheiro Braathen em Levi na Finlândia.
“A descida da vitória foi maravilhosa! Um dos melhores momentos da minha vida como comentarista!” — Flávio Ascânio
Atleta de snowboard, comentarista de snowboard e esqui, ele entrevistou Lucas no programa Bola da Vez da ESPN Brasil, algo que recorda com muito carinho.
“Quando Lucas Pinheiro Braathen anunciou que passaria a representar o Brasil no ano passado, a mídia começou a prestar mais atenção nele. Quem é esse esquiador alpino fantástico? Será que ele poderia dar ao Brasil a oportunidade única de alcançar resultados de pódio na Copa do Mundo e também na Olimpíada? Atualmente muitos brasileiros se interessam pelo esqui alpino e sonham com o Lucas no topo do pódio da Copa do Mundo e com uma medalha nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 em Milão-Cortina, algo que seria inédito para o Brasil.”
— Flávio Ascânio
Perguntamos ao Flávio Ascânio sobre um momento engraçado durante a transmissão, e ele riu:
“Acho que o grande desafio — e o mais engraçado também — é tentar pronunciar corretamente os nomes dos competidores.” — Flávio Ascânio
A ligação de Luciano SokDra Lancellotti com o esporte é profunda. Ele sempre esteve envolvido com esportes de ação — especialmente off-road bike e moto — e conhece pessoalmente alguns integrantes da família brasileira do Lucas. Isso tornou o momento ainda mais emocionante para ele.
“Eu assisti à primeira vitória do Brasil na Fórmula 1 quando tinha uns seis anos, ao lado do meu pai. Isso moldou minha vida e carreira. Cubro os X-Games desde 1995. E agora, relatar essa vitória única em um esporte que não é tradicionalmente brasileiro foi extremamente emocionante. Precisei me concentrar não só na narração, mas também no impacto que isso teria depois na internet. É realmente um dos grandes momentos esportivos da minha vida.”
— Luciano SokDra Lancellotti
Gustavo Rezende, do Piu Esportes — cobrindo para a CazéTV — também compartilhou seu entusiasmo sobre Levi:
“Ficamos impressionados com a quantidade de bandeiras brasileiras e os gritos de apoio ao Lucas mesmo antes da corrida começar, durante o sorteio dos números das posições de largada — sensacional. Deve ter sido mágico.” — Gustavo Rezende
Um sonho realizado
Hans Egger, especialista de esqui da SportTV e ex-atleta brasileiro da modalidade, competiu em dois Campeonatos Mundiais e nos Jogos Olímpicos de 1992 em Albertville (1ª participação do Brasil em Olimpíada de Inverno), onde carregou a bandeira do Brasil. Ele conheceu o esqui visitando seus avós na Alemanha e realizou seu sonho olímpico graças ao clube brasileiro de esqui no Canadá. Mas tinha outro sonho também: um dia ver um brasileiro vencer uma etapa da Copa do Mundo.
“Quando vi Lucas esquiar pela primeira vez, reparei nas cores da bandeira do Brasil no protetor de pescoço dele e percebi que ele amava o Brasil. Antes dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, eu disse aos meus colegas que Lucas poderia um dia competir pelo Brasil, porque tem dupla cidadania. Ninguém acreditou que ele deixaria uma equipe tão forte como a norueguesa. E no final, aconteceu.”
— Hans Egger
Profundamente emocionado, Hans Egger acrescentou:
“Eu sabia que a vitória viria — já esperava isso desde o ano passado. Ele realizou o meu sonho. Acredito que veremos coisas grandiosas. Lucas está abrindo portas para outros. Sou um grande admirador da mentalidade dele. Ele é realmente único.”— Hans Egger
O Brasil na neve
Como o Brasil não possui pistas de esqui naturais, os praticantes apaixonados viajam para a Argentina, Chile, Estados Unidos ou Europa. Em Levi, encontramos André e Helena em lua de mel — esquiando e ao mesmo tempo vivendo um momento histórico para o seu país.
Grazi Lorenzini, médica e embaixadora do Campeonato Brasileiro de Esqui, apontou as possibilidades atuais para brasileiros que desejam experimentar esse esporte. O Brasil possui uma pista de esqui indoor com neve artificial para entusiastas e iniciantes num parque temático chamado Snowland. Existem também simuladores de esqui em centros de treinamento e reabilitação. A Confederação Brasileira de Desportos na Neve organiza diversas atividades para aproximar o público desses esportes considerados incomuns. A vitória de Lucas certamente dará ainda mais impulso aos esportes de neve.
“As pessoas ficaram eufóricas, especialmente os fãs do evento. Recebi muitas mensagens pelas redes sociais. Houve uma felicidade intensa entre o público em geral ao ver um brasileiro se tornar campeão da Copa do Mundo.” — Grazi Lorenzini
Anders Pettersson assistiu à decisiva segunda descida em pé, sem conseguir se sentar de tanta emoção:
“Foi um dia muito especial! Como você sabe, houve uma grande repercussão tanto no Brasil quanto internacionalmente por causa da vitória dele.”— Anders Pettersson
Alegria em lares ao redor do mundo
A mãe de Lucas, Alessandra Pinheiro Evans, que vive na Nova Zelândia, contou que sua família no Brasil chegou até a ver fogos de artifício em homenagem à vitória dele.
“Nossa família finalmente pode acompanhar o Lucas e a trajetória dele. Está na TV e nas redes sociais. Acompanhamos o fã-clube dele. É algo novo e cresce rapidamente. Os brasileiros ainda estão aprendendo sobre esse esporte, mas o Lucas faz um trabalho maravilhoso em suas entrevistas. Para os brasileiros, é lindo ver nossas bandeiras e torcedores nas corridas da Copa do Mundo — isso realmente ajuda a tornar o esporte mais visível. E, como o Lucas sempre diz, há crianças que ele quer inspirar a seguir seus sonhos.”— Alessandra Pinheiro Evans
Amigos e familiares na Noruega também ficaram tomados pela emoção:
“Ficamos imensamente felizes por ele. A quantidade de alegria e adrenalina que ele trouxe para nossas salas de estar foi inacreditável. Foi épico! Estamos todos aqui por ele — ele é uma pessoa incrível.”
Hebia da Silva, uma orgulhosa torcedora brasileira que vive na Itália, descreveu seus sentimentos com muito carinho:
“A vitória do Lucas foi, para mim e para as minhas famílias — a brasileira e a italiana — um momento de euforia impossível de descrever. Desde o ano passado com o Fan Club Lucas Brazil, nós esperávamos por essa vitória e, quando o Lucas subiu ao pódio, foi inacreditável. Houve gritos, bandeiras nas janelas, samba — nossos corações estavam transbordando de felicidade.
Os italianos amam o Lucas. Eu recebi muitas mensagens cheias de carinho e dando parabéns a ele. Cada competição traz uma emoção única, mas esta foi inesquecível. Essa vitória foi como quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo de Futebol de 2002 com o Ronaldo Nazário — o ídolo do Lucas — que o tornou Ronaldo Fenômeno.
É isso que o Lucas é para nós agora: O FENÔMENO DO ESQUI. Estaremos sempre com ele; nossos corações batem pelo Lucas. Já estamos ansiosos pela próxima competição. Vamos dançar, Lucas!” — Hebia da Silva
A sua diferença é o seu superpoder — acredite nisso
Na linha de chegada em Levi, Lucas Pinheiro Braathen estava visivelmente emocionado — tremendo não apenas de frio, mas por tudo que aquele momento significava. Ele teve dificuldade em descrever o turbilhão de sentimentos que vivia. Ao falar sobre a presença de novas bandeiras no pódio da Copa do Mundo, ele fez um elogio especial ao finlandês Eduard Hallberg:
“Acho que estamos vivendo uma mudança. Estamos nos tornando mais diversos, com mais inclusão, e fico muito feliz em ver isso chegando também ao esqui alpino. Preciso dizer que poder dividir este pódio com o Eduard Hallberg — que conquistou isso em casa, na Finlândia, e para quem foi uma experiência tão marcante — é realmente especial. Fico muito feliz por ele e muito animado ao ver novas bandeiras, diferentes, conseguindo chegar até o topo.”
— Lucas Pinheiro Braathen
E do degrau mais alto do pódio, ele deixou uma frase que desde então se espalhou pelo mundo — em papéis de parede, pôsteres, telas de celular e até tatuagens:
“A sua diferença é o seu superpoder. Então acredite nisso!” — Lucas Pinheiro Braathen
Texto original: Ski Racing Media. Texto por: Darka Sefcik Starnova
Agradecimento especial ao Flávio Ascânio pela ajuda na tradução e na coleta de informações.
